publicidade
Quarta, 14 de Junho de 2017 - 13h57
Elba Ramalho mostra desconexão com a realidade ao atacar Marília Mendonça e o sertanejo
Helder Maldonado
R7

A rixa entre Elba Ramalho e Marília Mendonça, no fundo, tem só uma causa: o medo de perder espaço para novos artistas e tendências. As duas trocaram farpas pela imprensa após Elba dizer que Marília e os sertanejos estariam tomando espaço de artistas locais em festas de São João na Paraíba e outros estados do Nordeste.

Esse receio, contudo, passa longe de ser inédito. Aconteceu a mesma coisa quando o forró eletrônico começou a ganhar destaque e espaço nas festas juninas no fim dos anos 90. E no início dos anos 2000, a mesma reclamação foi repetida, mas dessa vez tendo como alvo o forró universitário, com bandas prioritariamente paulistas. Pouco tem a ver com preservar identidade e raízes.

O surpreendente, nesse caso, é Elba Ramalho, com tantas décadas de carreira, ainda se espantar com as mudanças no mercado e querer combater a renovação da música consumida no País. Como se o povão dependesse de conselhos paternalistas de especialistas sobre o que pode ou não ouvir.

Sertanejo e forró, hoje, formam na prática um mercado comum e até mesmo um som muito semelhante. Até ouvidos treinados mal conseguem discernir um do outro na atualidade. Não é à toa, que artistas como Wesley Safadão, Simone e Simaria e Aviões, que começaram como forrozeiros, hoje transitam bem nos festivais sertanejos e até já são considerados como artistas desse movimento.

E existe outro ponto desse discurso que supostamente defende a cultura nordestina que não faz sentido. Elba Ramalho, Alcymar Monteiro e outros representantes do forró insistem em dizer que as Festas Juninas têm um dono, que seria Luiz Gonzaga. E por isso, haveria obrigação do forró predominar.

Basicamente, o erro aí é não levar em conta que qualquer manifestação popular tem outros donos. Como o povo. E o povo hoje consome Marília Mendonça. E não Luiz Gonzaga. Não é bom e nem ruim. É apenas 2017. Ninguém quer ouvir Asa Branca para a eternidade.

Além do público, vale dizer, apesar de óbvio, que o poder público e a iniciativa privada estão por trás do financiamento desses eventos e têm interesse em transformá-los em referência para o turismo cultural e mercado publicitário.

Sendo assim, a rivalidade entre Caruaru e Campina Grande, que disputam não só o título de maior São João da Paraíba, mas do Brasil, foi ignorada na maioria dos discursos. As festas são muito importantes para a economia local. Em Campina Grande, onde Marília tocou, o evento movimentará este ano R$ 250 milhões (quase 4% do PIB municipal).

Além de impulsionar o turismo e o consumo durante um mês inteiro, gerou interesse do setor hoteleiro, que construiu dois novos hotéis na cidade para receber um público que cresce anualmente. Em Caruaru, 2,5 milhões de pessoas são atraídas ao município de 351 mil habitantes. Ao todo, são gerados 6 mil empregos diretos e indiretos na cidade. Em um momento de crise e taxa de desemprego que chega aos 15%, não é um dado que deve ser desprezado.

Não é à toa que os artistas mais populares da atualidade são contratados. Faz parte do negócio ser atraente. Mas representantes da cultura local não deveriam se incomodar tanto. Ao contrário do que vem sendo publicado por aí, ela não foi desprezada. A preservação da identidade resiste. Em Caruaru, das 400 atrações, 75% são locais. Já em Campina Grande, cada dia é liderado por grandes nomes da música pop nacional, mas garante espaço para várias atrações de forró quase na mesma proporção de CG.

Assim como festas de peão, eventos agropecuários, festas de Carnaval e festivais de pop rock, o headliner sempre será mais importante e a principal aposta para lotar as arenas, independente do estilo. Anitta toca em Salvador. Ivete no Rock In Rio. Mariah Carey em Barretos. Mas isso não exclui o espaço das bandas mais vanguardistas, tradicionais e inovadoras. Elas podem não ser protagonistas, mas não deixam de ser importantes para a pluralidade típica de um evento desse porte no Brasil.

publicidade


© Copyright 2014-2016 - CenárioMS - Todos os Direitos Reservados
Desenvolvido por: Ribero Design

(67) 9979-5354